“The art of healing comes from nature, not from the physician. Therefore the physician must start from nature, with an open mind.” — Paracelso
Introdução e histórico
Origens e disseminação
O cravo-da-Índia (Syzygium aromaticum, antigamente também referido como Eugenia caryophyllata) é originário das Ilhas Molucas (“ilhas das especiarias”), na Indonésia.
Desde tempos antigos, o cravo figura entre as especiarias mais valiosas do mundo, tendo sido objeto de intenso comércio entre regiões da Ásia, da Península Arábica e da Europa.
Na China da dinastia Han (aproximadamente 200 a.C. a 200 d.C.), há registros de que pessoas carregavam cravos na boca como forma de mascar para “refrescar o hálito” antes de comparecer à presença do imperador — uma prática que indica tanto valor estético-social quanto funcional.
Na medicina tradicional indiana (Ayurveda) e na medicina tradicional chinesa, o cravo há milênios tem sido usado para problemas digestivos, dor de dente, infecções e outras afecções.
No Brasil e em outras regiões da América, durante períodos coloniais e posteriores, o cravo foi incorporado às práticas farmacêuticas populares, sobretudo em chás, emplastros ou como condimento medicinal.
Quanto ao uso indígena especificamente (no Brasil ou em outras regiões ameríndias), a literatura moderna traz poucas menções diretas ao uso tradicional do cravo, possivelmente porque ele não é nativo das Américas. Em muitos casos, seu uso indígena pode ter sido suplementar após contato com colonizadores ou missionários. Ainda assim, no âmbito das culturas indígenas de outras áreas (Ásia, Oceania), especiarias como o cravo (ou equivalentes aromáticos locais) costumavam ter usos ritualísticos, espirituais ou medicinais. A transferência de uso para populações indígenas locais em vários lugares pode ter ocorrido posteriormente.
Portanto, ao falar de “uso indígena”, é importante distinguir entre populações onde o cravo era nativo (ou adaptado) e aquelas que o adotaram após contato externo.

Composição química principal
O componente bioativo mais destacado do cravo é o eugenol (ou “óleo de cravo”), que costuma responder por ~ 70 % a 90 % do óleo essencial obtido a partir dos botões florais.
Além do eugenol, outras substâncias que ocorrem no cravo ou em extratos dele incluem flavonoides, taninos, ácidos fenólicos (como ácido gálico), acetato de eugenol, e compostos voláteis menores de terpenos.
Essa riqueza em compostos fenólicos confere ao cravo forte capacidade antioxidante, sendo com frequência avaliado em estudos como “uma das especiarias com atividade antioxidante mais elevada”.
Propriedades farmacológicas e efeitos biológicos
A literatura científica aponta para múltiplos efeitos biológicos e pharmacodinâmicos do cravo e de seus extratos:
- Antioxidante: neutraliza radicais livres e reduz estresse oxidativo.
- Anti-inflamatório e analgésico: inibe mediadores inflamatórios, alivia dor local (mascado ou macerado)
- Antimicrobiano / antifúngico / antiviral: mostrou eficácia contra bactérias Gram-positivas, Gram-negativas e alguns fungos.
- Efeito dentário / oral: utilizado historicamente em odontologia, para dor de dente, gengivite, feridas na boca etc.
- Efeito sobre metabolismo (glicêmico, lipídico): alguns estudos animais sugerem melhora na sensibilidade à insulina, redução de glicose pós-prandial e efeito hipolipemiante.
- Efeito relaxante sobre músculo liso digestivo: alguns trabalhos descrevem relaxamento das camadas musculares do trato digestivo (alívio de gases, cólicas).
- Efeito vasodilatador / circulação: há indícios de que o cravo pode melhorar a circulação sanguínea local.
- Propriedades anticoagulantes / antitrombóticas: em alguns estudos, o cravo mostrou inibição da agregação plaquetária.
Esses efeitos dependem fortemente da dose, da forma de extração (óleo, extrato alcoólico, etc.), e do tempo de exposição. É importante notar que altas doses ou uso prolongado são contraindicados por sua força e potência, (especialmente para fígado) em algumas circunstâncias.
Propriedades físicas e sensoriais
Fisicamente, o cravo aparece como botões florais secos, de coloração marrom escura, com formato pontiagudo e cerca de 1–2 cm de comprimento. Ele é muito aromático, com cheiro forte e sabor pungente, adstringente e levemente picante.
Quando aquecido — por exemplo, quando se “queima” ou “esquenta” um cravo —, parte do óleo é liberado mais rapidamente, o que pode amplificar seus efeitos analgésicos ou antissépticos em uma região local (por exemplo, boca ou garganta).

Mastigação do cravo: benefícios e considerações
Mecanismo e racional para mastigar
A mastigação do cravo consiste em manter um ou mais botões florais entre os dentes e gengivas, liberando gradualmente o óleo e os seus compostos ativos na cavidade oral e partes próximas (gengiva, mucosa, faringe). Em algumas culturas, o cravo é “aquecido” (por exemplo, entre o fogo ou calor leve) antes da mastigação, o que promove a liberação mais rápida do óleo volátil — essa prática é documentada em usos tradicionais asiáticos.
A ação conjunta de estímulo mecânico (mastigar), calor (quando presente) e contato prolongado com mucosas permite que os compostos ativos do cravo exerçam seus efeitos localizados (antisséptico, analgésico, anti-inflamatório) diretamente onde são necessários (gengiva, dente, garganta).
Benefícios relatados da mastigação
Com base na literatura, os seguintes efeitos benéficos têm sido associados (ou plausibilizados) à mastigação de cravo:
- Alívio de dor dentária e dor gengival local
O eugenol é reconhecido como agente analgésico dental em odontologia (frequentemente usado em pastas e fórmulas com óxido de zinco + eugenol). A liberação local via mastigação pode proporcionar leve a moderada anestesia ou relaxamento local. - Ação antimicrobiana local
A presença contínua de compostos antimicrobianos no interior da boca pode inibir crescimento de bactérias patogênicas (Streptococcus, etc.), contribuindo para a prevenção de cáries, gengivite etc. - Estimulação da salivação e efeito mecânico
A mastigação em si estimula a produção de saliva, o que ajuda na limpeza mecânica da boca, diluição de ácidos etc. - Melhora do hálito
Em muitas culturas, o cravo mastigado é usado como “refrescante de hálito” ou mastigado após refeições para combater odores desagradáveis. - Ação local anti-inflamatória na garganta / mucosas vizinhas
Em casos de irritação de garganta ou faringite leve, a mastigação de cravo pode liberar compostos anti-inflamatórios e analgésicos que aliviam a irritação local.
Limitações e riscos
- Dose e toxicidade: o uso excessivo de cravo ou óleo de cravo pode causar irritação mucosa, queimaduras químicas ou efeitos adversos no fígado.
- Sensibilidade individual: pessoas com gengivas sensíveis, feridas abertas ou alergia ao eugenol devem ter cautela.
- Interações farmacológicas: o eugenol pode interagir com anticoagulantes ou medicamentos que afetam o fígado.
- Tempo de uso: manter o cravo por período muito prolongado pode causar desgaste local nas mucosas ou abrasão.
- Ineficiência para condições graves: mastigar cravo não substitui tratamento odontológico ou médico em casos de problemas sérios (infecção, cárie profunda etc.).
De fato, mesmo em muitas publicações técnicas sobre os benefícios do cravo, poucos estudos focam diretamente no ato de mastigar o botão floral como intervenção central — a maioria investiga extratos ou óleos aplicados externamente ou administrados por outras vias.
Um estudo interessante (2023) explorou gomas de mascar enriquecidas com extratos de cravo (0,1 % a 3 %) como veículo para liberação de compostos bioativos, avaliando efeitos sobre inibição de lipase (potencial antiobesidade) e atividade antimicrobiana local em boca. (Fonte: ResearchGate).
Isso sugere que a ideia de “mascar cravo” com finalidade funcional está ganhando terreno em pesquisas modernas.
Aspectos físicos, espirituais e simbólicos
Além dos efeitos físicos e farmacológicos, o cravo carrega simbolismos culturais, espirituais e usos simbólicos em diferentes tradições:
- Em muitas culturas do sul asiático, o aroma intenso do cravo está associado à purificação, proteção espiritual e afastamento de energias negativas.
- Em rituais espirituais ou de medicina tradicional, o cravo pode ser usado em defumações, incensos ou misturado a ervas para rituais de limpeza.
- O ato de mastigar ou portar cravo como amuleto (em sachês) pode ser pensado como uma forma de proteção “olfativa” ou simbólica contra doenças ou espíritos indesejados.
- O aroma espacial do cravo também sugere “acordar” os sentidos, tornar consciência mais clara, ou limpar o ambiente mental — usos que muitas práticas espirituais valorizam, embora esses efeitos não sejam quantificáveis cientificamente.
Referências
- Pandey, V. K. et al. Bioactive properties of clove (Syzygium aromaticum). PMC (2023). PMC
- Jaiswal, S. et al. Clove: A Champion Spice and Its Multiple Uses (IJPPR, PDF) IJPPR
- Hussain, S. Clove: A review of a precious species with multiple uses (IJCBS, PDF) Iscientific
- Recent Trends in Indian Traditional Herbs Syzygium aromaticum and its Health Benefits (Journal of Pharmacognosy & Phytochemistry, PDF) Phytojournal
- Batiha, G. E. S. et al. Syzygium aromaticum L. (Myrtaceae): Traditional Uses, Bioactive Chemical Constituents, Pharmacological and Toxicological Activities PMC
- Syzygium aromaticum – chewing, uses and effects Eman Research Publishing
- Kamandloo et al. Exploring the potential of chewing gums containing plant extracts (clove, saffron and clove-mint) ResearchGate


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